sexta-feira, 13 de junho de 2008

O braço midiático da fraude no Detran

Denúncia do MP Federal contra quadrilha que roubou o Detran/RS revela que líderes do esquema investiam na formação de opinião pública favorável aos seus interesses, com aportes publicitários para jornais do Estado. Lobista tucano acusado de integrar a quadrilha diz que colunistas de vários jornais eram pagos pelo esquema. Imprensa gaúcha silencia sobre o tema.

Há uma informação na denúncia produzida pelo Ministério Público Federal contra os acusados de integrar a quadrilha que agia no Detran/RS que não vem recebendo a menor atenção por parte da mídia gaúcha. É compreensível o silêncio. E lamentável também, colocando sob suspeita um serviço de interesse público (informar a população). Esse silêncio diz respeito a seguinte passagem da página 56 da denúncia:

“Ao lado disso, os denunciados integrantes da quadrilha não descuidavam da imagem dos grupos familiares e empresariais, bem assim da vinculação com a imprensa. O grupo investia não apenas na imagem de seus integrantes, mas também na própria formação de uma opinião pública favorável aos seus interesses, ou seja, aos projetos que objetivavam desenvolver. A busca de proximidade com jornais estaduais, aportes financeiros destinados a controlar jornais de interesse regional, freqüentes contratações de agências de publicidade e mesmo a formação de empresas destinadas à publicidade são comportamentos periféricos adotados pela quadrilha para enuviar a opinião pública, dificultar o controle social e lhes conferir aparente imagem de lisura e idoneidade”.

A denúncia cita como exemplo de investimento da quadrilha “na formação de uma opinião pública favorável aos seus interesses” as inserções de reportagens que visavam promover a idéia da implementação de usinas de casca de arroz no Rio Grande do Sul. O documento do Ministério Público Federal não cita em que data e veículo de comunicação tais reportagens teriam sido veiculadas.

O Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul divulgou nota oficial, citando o artigo n° 11 do Código de Ética do Jornalista, segundo o qual “o profissional não pode divulgar informações visando interesse pessoal ou vantagem econômica”. Repudiando esse tipo de prática, o sindicato encaminhou a nota à CPI do Detran defendendo que o assunto seja investigado e sejam nominados os profissionais envolvidos em ilegalidades, “pois não é justo que toda a categoria seja colocada sob suspeição em uma denúncia generalizada”.

Já os representantes dos “jornais estaduais”, “jornais de interesse regional”, “agências de publicidade e empresas destinadas à publicidade” não se manifestaram até agora sobre o tema. A rigor, existem dois jornais de circulação estadual no Estado, Zero Hora e Correio do Povo. Os demais jornais de Porto Alegre, O Sul, Jornal do Comércio e Diário Gaúcho não circulam em todo o Estado.

Lobista tucano diz que esquema pagava colunistas
Além da referência a um braço midiático da quadrilha acusada de roubar o Detran, feita na denúncia do Ministério Público Federal, há uma outra menção ao pagamento de jornalistas para produzir matérias de interesse do grupo. Ela aparece na carta que o empresário e lobista tucano Lair Ferst escreveu à governadora Yeda Crusius para “denunciar” que estava sendo vítima de uma campanha difamatória por parte da quadrilha. Segundo as investigações da Polícia Federal e do MP federal tratava-se de uma disputa interna no grupo pelo controle das verbas do Detran. Na carta, Lair Ferst escreve:

“Este grupo é liderado pelo ex-professor da Universidade Federal de Santa Maria, José Antonio Fernandes, e dos seus sócios Barrionuevo e do conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, Sr. João Luiz Vargas. Conta também com uma série de colunistas de vários jornais que tem remuneração paga pelo Sr. José Fernandes para plantar notícias de seu interesse particular. Usam diversas pessoas para servir aos seus propósitos escusos sem aparecer e ficar impune e livre de qualquer acusação”.

Barrionuevo é José Barrionuevo, ex-colunista político do jornal Zero Hora. Após deixar o jornal, Barrionuevo passou a trabalhar como “consultor de imagem” e marqueteiro em campanhas políticas. Em 2006, Barrionuevo trabalhou como consultor para o Pacto pelo Rio Grande, uma iniciativa do então presidente da Assembléia Legislativa do RS, Luiz Fernando Zachia (PMDB).

O principal resultado concreto do Pacto foi o lançamento do livro “Pacto – Compromisso de todos – Jogo da Verdade – Crise estrutural e governabilidade do Rio Grande”, assinado pelo próprio Barrionuevo e por Cezar Busatto (do PPS, ex-chefe da Casa Civil do governo Yeda Crusius, demitido após a revelação de uma conversa explosiva com o vice-governador Paulo Feijó (DEM), onde admitia o uso de empresas públicas para financiar campanhas eleitorais do PMDB e do PP).

Na noite do lançamento do livro (13 de novembro de 2006), Barrionuevo deu o seguinte autógrafo para José Fernandes, dono da empresa Pensant, acusado de ser um dos chefes da quadrilha que roubou o Detran:

“Prezado José Fernandes, meu bruxo: este livro e o Pacto não existiriam sem o teu apoio e as tuas luzes. Vamos juntos nesta caminhada. Viva a Pensant”.

O autógrafo de Busatto para Fernandes não foi menos entusiasmado:

“Caríssimo José Fernandes, o Pacto tem uma marca indelével da tua competência, sabedoria, compromisso público! Obrigado por tudo! Vamos continuar trabalhando juntos pelas boas causas!”.

Barrionuevo repudiou as acusações de Lair Ferst, que trabalhou na campanha de Yeda Crusius em 2006 como “captador de recursos”, conforme confirmou dias atrás o vice-governador Paulo Feijó. O hoje “consultor de imagem” afirmou:

“No final da campanha do segundo turno de Yeda Crusius (em outubro de 2006), quando atuei como consultor, chamei atenção para os problemas do senhor Lair Ferst. Um coordenador, braço direito da candidata, me pediu informações sobre o empresário, em decorrência de nota publicada na Página 10 (coluna do jornal Zero Hora) naqueles dias. Mandei a ficha policial, que dispensa comentários. Soube que, a partir do meu relatório, foi solicitado que Lair não freqüentasse mais o comitê. Desconfio que atrapalhei seus planos”.

As afirmações de Barrionuevo comprometem a governadora Yeda Crusius que considera Lair Ferst um “companheiro” e “militante” do PSDB. Se ela teve acesso à “ficha policial” de Ferst durante a campanha, como permitiu que ele trabalhasse como captador de recursos para sua campanha? O ex-vice-governador do RS, Antonio Hohlfeldt (ex-PSDB, hoje no PMDB) também se referiu a Ferst de maneira nada elogiosa, dizendo que conhecia sua reputação e, por isso, jamais permitiu que ele entrasse em sua sala.

Por outro lado, o relato que o lobista tucano fez à governadora guarda grande semelhança com o que a denúncia do Ministério Público Federal afirma sobre as conexões midiáticas da quadrilha que roubou o Detran. Apesar de todas essas informações, a mídia gaúcha decidiu silenciar sobre o tema. Acusados, de forma generalizada, de ter recebido verbas publicitárias de integrantes da quadrilha, os jornais do Estado não publicam uma linha sequer sobre esse assunto espinhoso.

Por Marco Aurélio Weissheimer é jornalista da Agência Carta Maior (correio eletrônico: gamarra@hotmail.com)

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Folha de São Paulo = Notícias Frias

O "Dilmagate", agora definitivamente desmascarado, foi a gota d'água. O jornal "Folha de São Paulo" deveria mudar de nome. Sugiro "Notícias Frias". Além de dar vazão ao seu caráter de dinastia estamental, de capitania hereditária, "Notícias Frias" seria o nome perfeito para um jornal que, "cometendo um haraquiri continuado" (Nassif), segue a reboque do jornalismo de esgoto da revista Veja.

Assim, em vez do ridículo e inverossímel "Folha de São Paulo, um jornal a serviço do Brasil", sugiro ao "Tavinho" que adote um slogan mais realista:"Notícias Frias, um jornal a serviço do Tucanato do Demo"

segunda-feira, 31 de março de 2008

LUÍS NASSIF E UM NOVO CAPÍTULO DE "O CASO DE VEJA"

"O araponga e o repórter"

"O novo capítulo de “O Caso de Veja” revela os bastidores do grande momento de Veja: o grampo do pagamento da propina de R$ 3 mil a um funcionário dos Correios.

"Mostra as ligações do repórter com o araponga, de como o araponga vendia seu pacote de serviços – que incluía o grampo e a possibilidade da matéria ser publicada na Veja – e de como o repórter atuava como “consultor”, avaliando a gravidade ou não do grampo e aguardando que o araponga escolhesse a melhor hora para publicar a matéria.

"Depois, como as pessoas que contrataram os serviços do araponga assumiram o comando da corrupção nos Correios, foram presos no ano passado e a revista nada noticiou".

Por Luís Nassif, que mostra, de modo irrefutável, a podridão da Revista Veja.

domingo, 30 de março de 2008

Pedro Simon - Pusilanimidade e Perdigotos

Dilma, Simon e um conhecido blog

Ricardo Noblat cobrou de Pedro Simon que fizesse um discurso no Senado denunciando o suposto "dossiê" dos cartões corporativos. O senador gaúcho estava falando de outro assunto. Pediu desculpas ao jornalista e cobrou explicações da ministra Dilma Roussef. Simon sabe qual é o seu exato lugar.

Denunciar irregularidades na efera pública, com o amparo de sólido trabalho investigativo, é tarefa irrenunciável do jornalismo. Deixar de fazê-lo, sob qualquer pretexto, é recusar os princípios que fundamentam a liberdade de imprensa, assegurada em qualquer regime democrático. Sobre isso não cabe qualquer discussão. É ponto pacífico para os que desejam a solidez das instituições políticas.

Mas, como já frisamos inúmeras vezes, quando a informação deixa de se submeter a outro imperativo que não seja o do aprofundamento democrático, a liberdade desejada se apresenta como sua própria contrafação. É servida, como subproduto de uma vulgata do utilitarismo, para satisfazer os interesses de seus leitores e sócios maiores.

Um jornalismo que se presta à instrumentalização partidária, distorcendo a realidade, infamando quem considera adversário político, usurpa uma franquia do Estado de Direito para funcionar como panfleto de ocasião. Deixa de ser instância fiscalizadora dos Poderes para tentar substituí-los como única instância legitimadora, subtraindo-lhe direitos e deveres. Quando a imprensa vira partido, seja de oposição ou de apoio a qualquer governo, renuncia ao seu caráter republicano, passando a ser ferramenta de interesses escusos. Há dúvidas se merece ainda ser mesmo chamada de imprensa.

É o que parece estar ocorrendo agora com o vazamento de um suposto dossiê contendo gastos feitos com cartão corporativo na época do governo Fernando Henrique. Antes de verificar se foi montado pela revista Veja, useira e vezeira em construir castelos de cartas, parcela expressiva da grande mídia não hesita em atribuí-lo ao Palácio do Planalto.

Há quase três anos, Luciano Martins escreveu um artigo para o Observatório da Imprensa ( "Quando faltam a razão e o direito") que se tornou definitivo pela dinâmica do jornalismo brasileiro. Analisando o que se delineava como tendência no surgimento do " blog do Noblat", o articulista foi preciso:

"A estréia do jornalista Ricardo Noblat, com seu blog político, no Estado de S. Paulo, traz uma lição inestimável para a compreensão do momento que vive nossa imprensa. Traz também uma mensagem claríssima aos jovens profissionais que sonham um dia escrever no outrora vetusto diário paulista.

A constatação é clara: engajada na luta partidária, a tradicional imprensa brasileira, bem representada pelo Estadão, perdeu os últimos pruridos e não se acanha em abrigar um panfleto em suas páginas, desde que venha a reforçar seus propósitos com relação ao atual governo. A mensagem aos jovens também não poderia ser mais explícita: se quiserem ser bem-sucedidos num grande jornal, aprendam a nadar de acordo com a corrente. Se possível, sejam radicalmente a favor de tudo que pensa o patrão. Substituam a ética pela moral do dia, e boa carreira”.


Mudou o veículo (hoje o blog se encontra na sombra da família Marinho) mas a toada permaneceu a mesma. O jornalismo (?) praticado ali comporta não só pleno endosso ao discurso da oposição como, em circunstâncias especiais, busca orientá-la visando à maior eficácia política. Não faltam, é claro, advertências públicas aos que não se comportam de acordo com a orientação da grande imprensa. Afinal, quem, senão ela, pode ser a única instância de intermediação possível? Quem, de fato, é a atora relevante do jogo político? Quem melhor conhece os atalhos que levam à desestabilização de governos eleitos através de coberturas tendenciosas?

Nesse sentido, nada mais pedagógico que duas postagens de Noblat, na sexta-feira, 28 de março. Em ambas, o jornalismo-torcida evidencia quem é quem na esfera pública midiática. Demonstra como se produz o esvaziamento de instituições clássicas de representação para que a imprensa reitere sua centralidade política.

Irritado com um discurso do senador Pedro Simon que, inadvertidamente, sobe à tribuna sem a pauta atualizada, o blogueiro não mede a intensidade da carraspana naquele que tem se notabilizado por um posicionamento incondicional às demandas tucanas. O texto foi ao ar às 9h53m:

"O que faz Pedro Simon (PMDB-RS) que discursa na tribuna do Senado sobre a harmonia das relações entre os três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) e não diz uma palavra, uma palavrinha só sobre o escândalo do dossiê produzido pela secretária-executiva da Casa Civil da presidência da República contra o casal Fernando Henrique Cardoso e o governo anterior? Será que Simon não leu a reportagem publicada hoje pela Folha de São Paulo? Será que nenhum assessor dele o alertou a respeito? Ou será que ele considera a história mais uma invenção da mídia dita golpista? Ô Simon, atentai bem: não dá para bancar o senador combativo e na hora agá afinar a voz. Não dá para enganar os trouxas o tempo todo".

A irritação obedece à lógica midiática. De onde o senador gaúcho imagina que há espaços para autonomia relativa? Às 11h20m, menos de duas horas após a advertência, Simon passa recibo e expõe o servilismo solicitado. Noblat registra com satisfação:

“Há pouco, Pedro Simon (PMDB-RS) voltou a discursar no Senado. Referiu-se à nota deste blog que cobrou sua omissão diante do fato denunciado hoje pela Folha de S. Paulo - o de que a Secretária-Executiva da Casa Civil encomendou o dossiê (ou "levantamento de dados") contra o governo FHC no caso do uso de cartão corporativo. Simon alegou que o discurso que fizera pouco antes estava preparado há muito tempo. E que ele não lera a reportagem da Folha. Pediu desculpas ao blog. Tudo bem, Simon. Não há de ser nada. Foi erro de sua assessoria, que não o alertou há tempo. É muito raro um político pedir desculpas. Não caberia pedir desculpas ao blog, mas aos brasileiros que assistiam à sessão do Senado transmitida pela televisão. A adesão à humilde ordem dos franciscanos fez bem a Simon."

O que temos aqui não é apenas a tutela da política pela imprensa. Mais que isso, fica evidente como se estrutura a hierarquia no campo conservador. Quem fugir da organização discursiva das oficinas de consenso deve ser advertido e, dependendo da relutância, silenciado.

O velho senador deve fazer sua contrição sem constrangimento. Ou será que ele não se deu conta de que o alvo do denuncismo vai além de Dilma Roussef? O que está em foco é a possibilidade de esvaziar a representação parlamentar do PT a partir de 2010. Para tanto, é preciso minar uma candidatura viável, seja ela qual for, desde já. Veleidades pessoais nessa hora soam absurdas. O jogo é sujo demais para melindres. Simon sabe qual é seu exato lugar.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do Jornal do Brasil e Observatório da Imprensa.
Pinçado da Carta Maior.

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Simon e o silêncio do Mampituba

O senador Pedro Simon (PMDB) segue em absoluto silêncio sobre os escândalos envolvendo seus aliados políticos no Rio Grande do Sul, denunciados pela Polícia Federal pela prática de crime organizado e de formação de quadrilha, entre outras coisas. Nenhuma palavra, nenhuma frase. Quando atravessa o Mampituba, o silêncio do senador transforma-se em rápida eloqüência. Simon está sempre pronto a cobrar esclarecimentos em Brasília.

Nesta sexta-feira, ele defendeu que a ministra Dilma Roussef dê explicações “o mais rápido possível” sobre o suposto “dossiê” que teria sido produzido na Casa Civil sobre o uso dos cartões corporativos pela presidência de Fernando Henrique Cardoso. “É o caso dela dar uma explicação de ordem pessoal”, afirmou. Já sobre o Detran e sobre as denúncias envolvendo a prefeitura de Canoas, apenas para citar dois exemplos, Simon faz de conta que não é com ele. O mesmo silêncio, aliás, é exercitado pelo senador Sérgio Zambiasi (PTB). Tudo se passa como se o que está acontecendo no Rio Grande do Sul não lhes dissesse respeito.



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Senador Simon, o monarca dos perdigotos

Desculpem, alerto que irei falar de algo escatológico: perdigotos. São aquelas gotículas de saliva que saltam da boca de alguém que fala. O senador Pedro Jorge Simon (PMDB-RS), como se sabe, é o rei do perdigoto no Senado Federal. Quando deputado estadual, que o foi por 16 anos, PJS emporcalhava a tribuna, o microfone e o entorno com sua saliva odorizada pelo fumo do cachimbo. Depois que o Pedro fala, diziam entre a repugnância e o riso, tem que disfarçar, convidá-lo para um cafezinho e chamar rápido a senhora da limpeza para passar um pano ensopado com detergente de amoníaco nos objetos próximos ao microfone.

Uma coisa desumana, aquela baba pulverizando tudo.

Tenho comigo que isso não é um fenômeno puramente mecânico da fala do sujeito. Suspeito mesmo que no caso do senador, seja algo mais profundo, fenômeno de difícil e complexa etiologia. Mas tenho uma hipótese empírica. A abundância amazônica de perdigotos do senador Simon seriam cacos de pensamentos caóticos que não se realizam como palavras e perdem-se líquidos e inúteis como pequenos defuntos das suas idéias mortas. Ou pequenos suicidas abandonando o deserto mental do sujeito.

Coisas da vida.

REVISTA VEJA (tente não vomitar)

"O maior fenômeno de anti-jornalismo dos últimos anos foi o que ocorreu com a revista Veja. Gradativamente, o maior semanário brasileiro foi se transformando em um pasquim sem compromisso com o jornalismo, recorrendo a ataques desqualificadores contra quem atravessasse seu caminho, envolvendo-se em guerras comerciais e aceitando que suas páginas e sites abrigassem matérias e colunas do mais puro esgoto jornalístico." (O caso de Veja - por Luís Nassif).

Para entender e saber mais sobre a Revista Veja, clique aqui.

NOVAS CAPITANIAS HEREDITÁRIAS

As dinastias midiáticas

Na imprensa brasileira mandam as dinastias estamentais. Os pais proprietários entregam a direção dos jornais, das revistas, das rádios e das televisões – das suas empresas – aos seus filhos, que repassam para os netos, perseverando todos no direito que se auto-atribuíram de decidir quem é e quem não é democrático, quem fala e quem não fala em nome da nação!

Assim tem sido ao longo de toda a história da imprensa no Brasil. No momento mais decisivo da história do século XX, em 1964, essas dinastias pregaram e apoiaram o golpe militar, assim como a instalação de uma longa ditadura, que mudou decisivamente os rumos do nosso país. Enquanto os militares intervinham nos poderes Judiciário e Legislativo, enquanto suspendiam todas as garantias constitucionais, enquanto fechavam todos órgãos de imprensa que discordaram do golpe e da ditadura, enquanto a maior repressão da nossa história recente se abatia sobre milhares de brasileiros presos, torturados, exilados e mortos, enquanto isso, as dinastias da imprensa mercantil se calaram sobre a repressão e apoiaram o regime militar!

Eram estes mesmos Mesquitas, Frias, Marinhos, Civitas, estes mesmos que transmitem por herança – como se fosse um bem privado – seu poder dinástico, transferindo-o para os seus filhos e netos. Os júlios, os otávios, os robertos, os victor, vão se sucedendo uns aos outros, a dinastia vai se perpetuando. Que se danem a democracia e o país, mas que se salvem as dinastias!

Mas, hoje, elas estão vendo seu poder se esvaindo pelos dedos. Conta-se que um desses herdeiros, rodando em torno da mesa da reunião do conselho editorial, herdada do pai, esbravejava irado: “onde foi que nós erramos? onde erramos?”. Estava desesperado porque a operação “mensalão” não conseguiu derrubar Lula elegendo o tucano, da sua preferência.

Se ele tivesse olhado os gráficos escondidos na sua sala, teria visto que, nos últimos dez anos, as tiragens dos jornais despencaram. A Folha de São Paulo, por exemplo, que é um dos de maior tiragem, perdeu em 10 anos, de 1997 a 2007, quase cinqüenta por cento dos seus leitores! Depois de quase ter atingido 600 mil leitores, vai fechar o ano de 2008 com menos de 300 mil! Uma queda ainda mais grave se considerarmos que, nesse período, houve crescimento demográfico, aumento do poder aquisitivo, maior interesse pela informação e elevação do índice de escolaridade dos brasileiros.

Os leitores deste jornal de direita estão entre os mais ricos da população. Noventa por cento dos seus menos de 300 mil exemplares são destinados aos leitores das classes A e B, as mesmas que não atingem dezoito por cento da população brasileira. Em outros termos, nove entre cada dez leitores do jornal pertencem aos setores de maior poder aquisitivo e suas condições de vida estão a léguas de distância das do nosso povo – esse povo que gosta do programa bolsa família, dos territórios de cidadania, da eletrificação rural, dos mini-créditos, do aumento real do salário mínimo, da elevação do emprego formal, etc.

A última e mais recente pesquisa sobre o apoio ao governo Lula, que a imprensa dinástica procurou esconder, realizada pela Sensus, revela que Lula é rejeitado por apenas treze por cento dos brasileiros! É essa ínfima minoria, cinco vezes menor do que aquela dos que apóiam o governo Lula, que povoa os editoriais dessa imprensa, suas colunas, seus painéis de cartas dos leitores! Esse é o índice da influência real que a mídia mercantil – juntando televisão, rádio, jornais, revistas, internets, blogs – tem! Apesar de todos os instrumentos monopólicos de que dispõem, apesar das campanhas diárias para dominar a opinião pública, não conseguem nada além desse pífio resultado dos treze por cento que representam!

As dinastias podem continuar a ter filhos, netos e bisnetos, mas é possível que já não dirijam jornais. Esta pode ser a última geração de jornalistas dinásticos que, talvez exatamente por isso, revelam diariamente o desespero da sua impotência, assumindo o mesmo papel que ocuparam nos anos prévios a 1964. É o mesmo desespero da direita diante da popularidade de um Getúlio e do governo Jango. Nos dois casos, só lhes restou apelar à intervenção das Forças Armadas e dos EUA, estes mesmos EUA que nunca fizeram autocrítica, nem desta nem de qualquer outra das suas intervenções contrárias à democracia da qual pretendem ser os arautos! Depois de terem pedido e apoiado o golpe militar, porque ainda acreditam que podem dizer quem é democrático e quem não é?

Por Emir Sader

Texto originalmente postado no Blog do Emir (Agência Carta Maior).